22.1.11

Quadrinhos: Literatura? Arte? Nona arte?

Em certa conversa com um amigo, fã e autor de quadrinhos, o ouvi tecendo questionamentos a respeito da autenticidade das HQs enquanto manifestação artística. Ele levantou a seguinte hipótese: seriam os quadrinhos uma arte menor por terem que “carregar o pesado fardo”, como diria o mestre Tolkien, de se limitarem a ser apenas uma bricolagem das artes consensuais?

Após um breve levantamento de teorias, chegamos à conclusão que se os quadrinhos não passam de bricolagem, então outras artes também o são, já que se constituem por mais de um tipo de linguagem, como é o caso do cinema, do teatro, da música contemporânea, entre outras.

Numa outra ocasião, uma amiga me perguntou se os quadrinhos pertenciam à área da literatura, o que eu, de prontidão, respondi negativamente, dizendo que estão mais para as artes gráficas, já que é possível realizar quadrinhos sem textos, mas sem imagem não existe quadrinhos. Há uma outra exceção, mas são apenas experimentações e não podem ser utilizadas como parâmetro para avaliar o todo.

Em seguida, um colega próximo disse que nunca havia pensado nisso, mas que ainda iria raciocinar a respeito e que acabaria por me contradizer. A tendência por achar que quadrinhos são uma espécie de literatura que também usa imagens para narrar a história (não confundir com a literatura ilustrada, que utiliza elementos gráficos apenas para ilustrar, trazer adendos, o que as palavras sozinhas manifestam, sem que haja uma narrativa em conjunto).

Como bem atesta Paulo Ramos em seu livro A Leitura dos Quadrinhos (Contexto, 2009), “Chamar quadrinhos de literatura, a nosso ver, nada mais é do que uma forma de procurar rótulos socialmente aceitos ou academicamente prestigiados (caso da literatura, inclusive a infantil) como argumento para justificar os quadrinhos, historicamente vistos de maneira pejorativa, inclusive no meio universitário”.

Toda arte que goza de uma pluralidade de linguagens, evidentemente, há por ter semelhanças com outras formas de arte, mas nem por isso perdem sua autonomia, já que o que constitui uma linguagem própria é a maneira como ela interage entre essas diversas formas de linguagem, compondo, assim, a sua singularidade.

A especificidade dos quadrinhos está na maneira como a nona arte interpola características da literatura, artes gráficas e da narrativa, só pra citar as principais, ou, ao menos, as mais evidentes. Disso resulta uma linguagem que contém em si características inexistentes a outras formas de arte. O texto é trabalhado nos quadrinhos de maneira bastante distinta da literatura, assim como os aspectos gráficos se diferenciam bastante dos presentes na pintura, por exemplo. A narrativa de quadrinhos é diferenciada com relação à utilizada no cinema. E por aí vai.

Portanto, literatura é uma coisa e quadrinhos são outra. E ponto!

Mas o que ocorre com a nossa querida nona arte que ainda permanece relegada ao título de arte menor, pra não dizer outra coisa?

Bem... Os quadrinhos começaram com o pé esquerdo. Surgiram à mesma época do cinema – que é chamado de sétima arte, embora sejam muitos os que atestam que os quadrinhos surgiram antes –, mas este se viu numa posição privilegiada logo de cara, já que era produzido e consumido por gente endinheirada, o que lhe atribui certo status social. Pronto! Se é da elite, é bom! Esse é o pensamento burguês mais clássico e que ainda há de permanecer por um bom tempo, infelizmente.

Mas voltando aos quadrinhos... Tudo é uma questão de autovalorização. O cinema já surgiu com o propósito de se tornar sério, já que quem o produzia estava ciente de sua potencialidade, enquanto que os quadrinhos eram vistos como passatempo, piadinhas, humor barato. Não é à toa que nos Estados Unidos são chamados de comics. Os próprios autores demoraram a encarar as inúmeras possibilidades desta nova arte. Muitos nem se diziam artistas, apenas ilustradores ou menos do que isso. E nem de longe estou menosprezando os ilustradores, que fique claro!

Um dos primeiros geninhos a perceber que tinha a faca e o queijo na mão foi Will Eisner, profícuo e brilhante autor que explorou como poucos todas as possibilidades daquela arte desprestigiada, ainda mais em sua época. Daí ele tentou de tudo pra elevar o moral dos quadrinhos, tentando até mudar o substantivo por um composto: sequential art, ou arte sequencial, como dizemos aqui. Inspirou até o nome de um de seus livros teóricos, uma espécie de bíblia da linguagem que ele tanto defendeu ao longo de toda a sua vida. Mas o substantivo criado por ele nome não pegou muito. Tem até quem o use, mas os nomes habituais continuam em voga.


Contudo, outro substantivo composto criado por ele é muito usado, principalmente de umas décadas pra cá: graphic novel. Dava um tom muito mais sério, cheio de credibilidade, ao termo que eles usavam pra gibi lá na gringa: comic book. E é lógico que a contribuição de Eisner para os quadrinhos não ficou apenas no campo léxico. Mas não há espaço aqui para falar sobre toda a sua importância. Por isso recomendamos seus livros Quadrinhos e Arte Sequencial (Martins Fontes, com nova edição lançada em 2010) e Narrativas Gráficas (Devir, 2008, 2ª ed.).

Só que nisso tudo há uma coisa bem curiosa, pra dizer o mínimo. Da Idade Moderna em diante, o Brasil se tornou um país bastante americanizado. E foi nesta época que os quadrinhos surgiram. Por essa ironia do destino, sempre compartilhamos a ideia americana de que quadrinhos não são coisa séria. Se a elite intelectual deles dizia, quem éramos nós para provar o contrário, não? Mas na Europa a coisa era bem outra.

Lá os quadrinhos são Nona Arte mesmo, com letra maiúscula. São levados muito a sério e recebem amplo apoio social, acadêmico e governamental. O mesmo acontece em países da Ásia, como Japão e Coreia, que possuem até cursos superiores de formação em mangás e manwhas, como são chamados, respectivamente, os quadrinhos nesses países.

Centre Belge de la Bande Dessinée
Na França e Bélgica, por exemplo, a pesquisa acadêmica relacionada aos quadrinhos está a anos-luz da realizada no Brasil, nem tanto em termos de qualidade, mas de quantidade mesmo. Livros e mais livros teóricos são encontrados nas livrarias, junto à infinidade de quadrinhos dispostos nas prateleiras. Até museus específicos eles têm!  Se formos falar da produção, então... Perdemos muito feio! O que é lançado lá num mês não dá o que é publicado aqui um ano.

Fiz uma ressalva com relação à qualidade das pesquisas acadêmicas nacionais e internacionais porque alguns guerreiros brasileiros publicaram e ainda publicam materiais teóricos de altíssimo valor, como é o caso de Álvaro de Moya, Antônio Luiz Cagnin, Moacy Cirne, Sonia Bibe Luyten, Waldomiro Vergueiro, Gonçalo Júnior e o supracitado Paulo Ramos, só pra citar alguns.

Mas seja na Europa, América do Norte ou Ásia, quadrinista é uma profissão de verdade, com uma remuneração honesta e plausível, que torna possível pagar as contas no fim do mês sem ter que recorrer a soluções alternativas. Você até consegue viver especificamente como roteirista! Aqui no Brasil, se alguém disser que quer viver exclusivamente como roteirista de quadrinhos, certamente vai passar fome, a não ser que tenha nascido em berço de ouro, recebido uma herança ou que tenha ganhado na loteria. Caso contrário, há de viver sempre no vermelho.

Mas terá que ser sempre assim? Lógico que não! Muitos desenhistas brazucas viram no mercado externo uma solução. Já que ninguém no Brasil paga uma quantia razoável pela produção de quadrinhos, então vamos trabalhar pras editoras gringas! Muitos artistas fizeram carreira assim, como Mike Deodato, Luke Ross, Joe Bennett, Marcelo Campos, Roger Cruz, Ivan Reis, Renato Guedes, os gêmeos Bá & Moon e mais uma galera. Publicaram muito material bom e ruim pela DC, Marvel, Dark Horse, Image, Chaos!... Aprenderam com a experiência.

E por que só desenhos e não roteiros? Daí voltamos à influência americana no Brasil. Lá, principalmente na mega indústria dos super-heróis, eles sempre valorizaram desenhos virtuosos em detrimento de roteiros elaborados. E quando sentiram a necessidade de investir em boas histórias, o fizeram por meio de escritores nacionais e ingleses. Deu que a brasileirada preferiu investir nos desenhos ao invés dos roteiros. Isso resultou numa penca de gente que domina os traços, mas que ainda pouco exploram a história que será contada.

Felizmente esse panorama vem se alterando com a publicação de muita gente talentosa, que escreve e desenha quadrinhos. Danilo Beyruth e Caeto, por exemplo, foram bastante elogiados após o lançamento de Bando de Dois (Zarabatana Books) e Memória de Elefante (Cia. das Letras), ambos de 2010. Lourenço Mutarelli já virou mestre na escrita, tanto que acabou se dedicando quase que exclusivamente à composição de obras literárias, o que é um a pena pros quadrinhos.

O que o Brasil precisa é de um aprofundamento maior no que tange à linguagem e composição de histórias em quadrinhos. São necessárias mais pesquisas na área, mais debates, mais difusão de conhecimento. Quadrinhos não devem se relegar às prateleiras de colecionadores fanáticos tampouco ao cérebro de profundos conhecedores que guardam sua experiência a sete chaves. Essa informação toda deve ser difundia para criarmos novos leitores e novos autores, com amplo conhecimento de causa, assim como ocorre lá no Velho Mundo.

Devem surgir cursos, livros, grupos de discussão, eventos de grande porte, espaço na mídia, apoio público e governamental. O mercado precisa acontecer de uma vez por todas, bem como a sensibilização pela Nona Arte, que trará aos brasileiros novas formas de enxergar os quadrinhos, com propriedade, capacidade crítica, potencial criativo e viés comercial, porque se não há quem queira comprar, não há quem queira publicar. E não me refiro somente àquilo que tem forte apelo comercial, mas a obras quem possuem sensibilidade para atrair leitores como eu, que não encaram os quadrinhos como sinônimo de super-heróis.

Para entender os quadrinhos, não basta comprar todos os títulos que trazem estampados em suas capas músculos, pernas longilíneas, colantes, cuecas por cima da calça e capas coloridas esvoaçantes. Quadrinhos são muito mais do que saber o nome de tudo quando é desenhista hypado ou cada detalhe da vida de seus heróis preferidos. É necessário muito mais do que isso para se possuir referencial analítico e vigilância epistêmica suficientes para separar o joio do trigo.

Saiba definir qual é o seu verdadeiro papel enquanto leitor de quadrinhos e tenha em mente qual é a sua contribuição para a ARTE que você tanto ama. Você quer apenas encher os bolsos das grandes corporações dos quadrinhos ou prefere contribuir substancialmente para a disseminação, compreensão e evolução daquilo que tanto prazer e emoção vem lhe causando desde sua tenra infância? Seja lá com que idade você tenha descoberto os quadrinhos, já está mais do que na hora deles serem encarados a sério enquanto manifestação artística, não como mero produto de entretenimento.

Os quadrinhos precisam de você, leitor inteligente que é. Reflita sobre isso toda vez que for a uma banca ou livraria e saiba defender suas convicções quando forem colocadas à prova. Nessa hora, o que manda não é o nome do inimigo X ou desenhista Y, certamente, mas o quanto você tem de esclarecimento a respeito de tudo o que constitui essa maravilhosa linguagem em seus aspectos mais amplos.

2 comentários:

thesunsets disse...

Adorei o texto, Leonardo. Como grande admiradora de quadrinhos há anos e estudante de Letras, é lindo de se ler um texto bom desses (com centenas de pontos em comum -- e outros nem tanto) com alguém igualmente formado em letras :)
No momento, coleto material para escrever algo semelhante e seu texto veio em boa hora. Avisarei quando for ao ar.

Abraços!

Charles disse...

Bom texto!
Não entendo lhufas de literatura, mas achei bem interessante a parte em que você afirma que HQ é HQ e ponto. A valorização de algo deve vir com o reconhecimento de sua identidade mesmo, não à sombra de pomposos e bem aceitos termos e conceitos a tempos discutidos na academia.
Tenha fôlego para continuar essa discussão, há muito a ser explorado
Abs!